Vamos relembrar Fernando e seus heterônimos.

Fernando, poeta e Pessoa singular que se pluraliza em seus diversos heterônimos que foram criados contendo fortes personalidades e características. Nesse espaço, dedicarei alguns poemas de Fernando e de suas outras crias.

Abrindo a porta para os convidados:

Não sei quantas almas eu tenho.
              Fernando Pessoa.

Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi, nem acabei.
De tanto ser só tenho alma.
Quem tem alma, não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo, 
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto á minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, o meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto á margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: ''Fui eu?''
Deus sabe, porque o escreveu.



Amo o que vejo.
    Ricardo Reis.

Amo o que vejo porque deixarei
Qualquer deixarei de o ver,
Amo-o também porque é.

No plácido intervalo em que me sinto,
Do amar, mais que ser,
Amo o haver tudo e a mim.

Melhor me não dariam, se voltassem,
Os primitivos deuses,
Que também nada sabem.



Todas as cartas de amor são ridículas.
                  Álvaro de Campos.

Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Tem de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são 
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje,
As minhas memórias
Dessas cartas de amor 
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.



É talvez o último dia da minha vida.
                 Alberto Caeiro.

É talvez o último dia da minha vida. 
Saudei o sol, levantando a mão direita, 
Mas não o saudei, dizendo-lhe adeus,
Fiz sinal de gostar de o ver antes: mais nada



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